segunda-feira, 29 de novembro de 2010

LOBO - ANIMAL DE PODER - PARTE I


Esta é uma abordagem um tanto diferente a um Animal de Poder que por ser tão comummente identificado como "nosso" animal de poder (muitas vezes não por contacto real, mas sim por simpatia ou identificação cultural) , poderá ser considerada algo chocante.


É a minha abordagem pessoal e imparcial. Note-se que o Lobo é um dos animais que eu mais admiro enquanto simples animal mamífero. Pelo respeito e amor que lhe tenho, não o posso nem humanizar, nem domesticar ou "acãozar", se é que me entendem...

Todos os animais de poder têm aspectos positivos e negativos, e se nos emprestam as suas qualidades também espelham os nossos defeitos...Trabalhar com a energia dos Animais de Poder acarreta consciência e responsabilidade e um profundo conhecimento da própria energia selvagem e primordial da Natureza...e do homem enquanto parte integrante dela.
Assim, decidi começar pelo menos óbvio e se resistirem a esta análise pouco ortodoxa, chegaremos então ao Lobo que todos conhecem e enaltecem...só assim poderemos entender e incorporar completamente o Lobo como Animal de Poder...
Esta indicação foi-me dada pelo Grande Lobo do Árctico, que me visitou sem eu o esperar durante o meu sono, a semana passada. Levei alguns dias, mais do que me é normal, a "digerir" a sua influência e a entender o que ele me pediu, espero tê-lo conseguido. Integrar esta energia foi-me particularmente "doloroso" em determinadas situações e confesso que esta semana que passou a limpeza foi de tal ordem que envolveu rios de lágrimas diários...esta experiência requereria um isolamento que eu não posso ter dadas as minhas obrigações diárias, pelo que tive também de trabalhar arduamente para o fazer de uma forma mais camuflada...
...não poderia sentir-me mais abençoada e agradecida por ter sido escolhida por este Animal nesta altura da minha vida.
Posto esta longa nota ...vamos ao que interessa...

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

Assim rezam muitas lendas locais, muitas histórias profundamente enraizadas na memória colectiva...quem não ouviu vezes sem conta a história dos 3 Porquinhos ou da Capuchinho Vermelho?
Mas quantos de nós conhecemos a versão original da história da Capuchinho Vermelho? E a sua simbologia oculta?

A primeira versão conhecida da fábula da Capuchinho Vermelho, é de origem camponesa e remonta ao Sec. XVIII, tendo sido compilada por Robert Darnton no Grande Massacre dos Gatos e outros episódios da história Cultural Francesa.

Um dia a mãe de uma menina mandou que esta levasse pão e leite á avó. A menina lá foi, caminhando pela floresta. Um lobo aproximou-se dela e perguntou-lhe para onde ela ia. "Para casa da minha avó" respondeu ela. "E por qual caminho vais? O dos alfinetes ou o das agulhas?" "O das agulhas" respondeu ela. Então o lobo apressou-se a ir pelo outro caminho (dos alfinetes) e chegou primeiro à casa. Matou a avó, encheu uma garrafa com o seu sangue, cortou a carne em fatias, e colocou-as numa travessa. Depois, vestiu a roupa de dormir da avó e ficou deitado na cama, à espera.
Truz, Truz
- Entra, querida.
- Olá, avó. Trouxe pão e leite que a minha mãe mandou.
- Serve-te também de alguma coisa, minha querida. Há carne e vinho ao pé da lareira.
A menina comeu o que lhe era oferecido. Então, o lobo disse: - Tira a tua roupa e deita-te na cama comigo.

- Onde ponho o meu avental?
- Atira-o para o fogo. Não vais precisar mais dele.
Para cada peça de roupa: corpete, saia, saiotes e meias a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:
- Atira-a para o fogo. Não vais precisar mais dessa roupa.
Quando a menina, nua, se deitou na cama, disse:
- Ah, avó! Tu tens muito pelo!
- É para me manter mais aquecida, querida.
- Ah, avó! Tens uns ombros muito largos!
- É para carregar melhor a lenha, querida
- Ah, avó! E as tuas unhas são tão compridas!
- É para me coçar melhor, querida!
- Ah, avó! E os teus dentes? São enormes!
- É para te comer melhor, querida.
E o lobo comeu a menina nua.

Muito resumidamente, esta versão original remete para a transição da adolescente em mulher e depois em velha: Virgem-Mãe-Anciã. O Lobo é o elemento transformador sempre presente. É ele que acaba com o ciclo da avó, que oferece o seu sangue e carne (iniciação á fertilidade) á menina virgem, que lhe pede para que se dispa dos seus conceitos, e então que a "devora" , transformando-a. Comparando com o texto actual, podemos ver que neste há oculto algo semelhante a esta simbologia, mas a sua forma aponta para uma subjugação intencional do texto original adequando-o valores diferentes... Esta alteração ocorreu ao longo dos tempos e não nos nossos dias. De facto pode ter ocorrido na mesma altura em que os Irmãos Grimm escreveram as suas versões dos contos populares, por exemplo.

O lobo, que aparece como símbolo da mudança na primeira versão do conto, apresenta-se na fábula actual apenas como o vilão necessário para que o Bem se manifeste na personagem do caçador, do homem viril, que surge no conto já quase no fim para controlar de imediato a situação inserindo na historia a eterna luta entre os opostos. O Lobo tornou-se apenas o mal necessário para que o homem/Deus actuasse, manifestando também a sua supremacia sobre a Natureza...

O Pão e o leite da primeira versão são símbolos do alimento essencial e da abundância/fertilidade ligados à imagem da mulher mítica que perpetua a espécie humana e que carrega consigo a vida gerada pelo sexo. Na versão actual, a Capuchinho encarna a donzela frágil e indefesa que só sobrevive com o auxílio do caçador : homem/Deus.
Há igualmente os dois Lobos: o da primeira versão é o personagem que transforma, é aquele que carrega a força do sexo que transforma a capuchinho virgem na mulher fértil. É o lobo que lhe ordena para atirar as roupas no fogo, numa clara alusão à regeneração. A menina livra-se de todos os seus conceitos para readquiri-los novos, refeitos, preparando-a para o seu novo ciclo, que mudará novamente com a chegada da velhice e a tornará infértil novamente (a imagem da infertilidade representada pela avó também sofre uma mudança, ou seja, dá o seu último passo dentro da vida feminina quando o Lobo, no seu papel de personagem da mudança, a mata, selando o final do ciclo).

Na actual versão da história, o Lobo é apenas o mal, age por maldade e é morto pelo caçador homem/Deus acima de tudo; polarizando a simbologia na luta entre o bem e o mal. Apenas.

Na verdade, o caçador destroi a mudança representada pelo lobo ao retirar das suas entranhas a avozinha viva, transgredindo todas as leis naturais (acção do homem-Deus)...esta acção carrega simbolicamente todo o medo da humanidade em encarar o final do seu ciclo de vida. É uma solução que apenas marginaliza a questão de que a morte é algo irreversível e comum a todos os seres vivos.

(Há imensas simbologias ocultas em ambas as versões da história, mas eu paro por aqui.)

Afinal...a verdadeira simbologia do Lobo num conto como este, que remonta á Idade Média...ou até antes disso, não é o ser Mau, a maldade do lobo que devora os rebanhos e ataca o homem...mas sim a Mudança. O Lobo é no fundo, o professor...o catalisador da transformação...

O Lobo tem sentidos aguçados e possui a lua como sua aliada. A lua é a representação da energia psíquica e do inconsciente que guarda os segredos da sabedoria e do conhecimento, é a regente dos ciclos da vida...e dos ciclos da mulher. A magia do lobo fortalece e estimula o professor interno que existe dentro de cada um de nós. O Lobo estimula-nos a ensinar as crianças da terra a viver em harmonia e a compreender o GRANDE MISTÉRIO e o sentido da vida.

Mas não só...
O lobo é também o consumidor compulsivo da vida. Ele destrói para sobreviver e possui uma fome insaciável. O lobo simboliza o desejo no seu aspecto humano mais profundo: é o anseio.
O lobo aparece em vários mitos e em todos eles ele é fome insaciável, desejo, anseio incontrolável.

...(continua)...



PS. Este estudo teve como base várias fontes, que na última parte serão postadas.

6 comentários:

Ives disse...

Nossa, achei td muito impactante, adoro o lobo, abraços,

Siala disse...

Oi Ives, como eu disse, este não é um post "normal" e "espiritualmente correcto" sobre o Animal de Poder Lobo. Este é um animal de poder demasiado poderoso e que a maioria trata como se fosse o cão...não é bem assim e esta é uma energia que convém entender na sua totalidade. Por outro lado, para mim não faz sentido seguir um xamanismo que nada mais é que uma cópia mortiça do xamanismo original...estamos no sec.XXI e como tal há que também adequar a nossa forma de sentir as energias, pois estas também já não são as mesmas que por exemplo, existiam no tempo dos índios. Sei que este é um tema polémico e que não atrai grande simpatia, contudo a verdade é que vivemos aqui e agora e não há "x" séculos atrás...isto foi algo com que me debati grande parte da minha vida. A convivência com uma saudade permanente do que já foi e não é mais. A aceitação do momento presente,desta vida, e onde ela se insere...
Obrigada pelo comentário :) Esta é apenas a primeira parte ;)
Namasté

arKana disse...

Siala, minha querida! querida sim! adorei...
é tudo isso, revejo-me em tudo, em tudo!

também eu destruo, de vez em quando arranco tudo fora, transformo tudo à minha volta... a essência fica e o circulo completa-se. É uma necessidade que poucos compreendem.
Agora que falo sinto aqui o lobo, com paixão. Agora que leio isto faz sentido, é uma paz saber isto, agora.

essa fome, essa ânsia, essa compulsão... ah minha querida, como me compreendes :-D
Beijos grandes

p. s. fico à espera de mais, não demores

Siala disse...

ArKana...eu sabia (intuição?) que tu serias uma das pessoas que ia entender esta energia assim também, na sua totalidade ;) a parte consensual e cor de rosa já está sobejamente explanada pela net...há sempre o "medo" de falar nas forças primordiais, destruidoras, renovadoras, aquelas que nos levam a mudar tudo, a romper com o certinho, a sair do rebanho, a querer mais, muito mais: saber mais, buscar mais, sentir mais...enfim...no mundo espiritual há também tabus, mas nós estamos aqui, agora! E é aqui e agora que se faz o nosso caminho e o nosso crescimento. Neste mundo, nesta dimensão, actuando na sua esfera, mergulhando nas suas entranhas, e não construindo templos de ar e vento desfasados da realidade que escolhemos viver. O nosso templo somos nós, é o aqui, é esta Terra que nos aceitou!
Namasté

Élys disse...

Muito interessante a sua explanação com um simbolismo, perfeitamente lógico. Gostei.
Beijos

Siala disse...

Élys, há que agitar o pensamento, descobrir novas formas de olhar e sentir...no fundo, mostrar outros prismas sobre temas e assuntos que pertencem á nossa memória colectiva ;)
Namasté!